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Os lacaios de Trump se encontram no Brasil

  • Foto do escritor: Ricardo Pessetti
    Ricardo Pessetti
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Ao participar da convenção que lançou Flávio Bolsonaro, Javier Milei ajudou a expor uma articulação continental na qual a extrema direita converte a soberania nacional em instrumento da política de Washington.



Javier Milei desembarcou em São Paulo como presidente da Argentina, subiu ao palco como militante da família Bolsonaro e gerente de Trump.


Não veio ao Brasil discutir comércio, integração regional, infraestrutura ou qualquer outro tema que justificasse institucionalmente a presença de um chefe de Estado. Participou da convenção do PL que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência, atacou Lula, dirigiu insultos ao ministro Alexandre de Moraes e colocou a autoridade de seu cargo a serviço de uma candidatura brasileira.


A intervenção foi aberta. Um presidente estrangeiro atravessou a fronteira para participar da organização eleitoral de um grupo político aliado de Donald Trump, num momento em que o governo norte-americano aumenta a pressão econômica e diplomática sobre o Brasil.


Milei não precisou falar em nome de Washington. Sua presença fazia sentido justamente porque todos os envolvidos já conheciam o alinhamento em construção.


A extrema direita internacional não funciona como uma organização centralizada, na qual cada liderança espera uma ordem formal dos Estados Unidos. Trata-se de uma articulação fundada em interesses convergentes, dependência política e disponibilidade para recorrer ao poder norte-americano contra adversários internos.


Trump oferece a capacidade de pressionar governos, economias e instituições. Milei coloca a Presidência argentina dentro dessa articulação. Eduardo Bolsonaro atua nos Estados Unidos para estimular sanções contra o Brasil. Flávio procura transformar esse conjunto de relações em sustentação para sua candidatura.


A novidade não está na tentativa dos Estados Unidos de interferir na América Latina. Está nos instrumentos empregados e na naturalidade com que lideranças locais passaram a solicitar a interferência.


Washington continua dispondo de poder militar, mas não precisa mobilizá-lo sempre que deseja constranger outro país. Tarifas, sanções financeiras, restrições de visto, investigações comerciais e pressões sobre empresas e plataformas produzem efeitos imediatos sem exigir a imagem de soldados desembarcando num território estrangeiro.


Em 2025, o governo Trump aplicou uma tarifa adicional a produtos brasileiros e vinculou publicamente a medida ao tratamento dispensado a Jair Bolsonaro. Também sancionou Alexandre de Moraes e revogou vistos do ministro e de seus familiares. Instrumentos de política externa foram usados para pressionar o sistema judicial brasileiro numa causa de interesse direto da família Bolsonaro.


Em julho de 2026, uma nova tarifa estadunidense atingiu grande parte das importações brasileiras. A investigação conduzida pelos Estados Unidos incluiu o Pix, o comércio digital, normas de propriedade intelectual e decisões tomadas pelo Estado brasileiro dentro de suas próprias competências.


A interferência passou a operar pela linguagem administrativa. Uma decisão publicada em Washington pode encarecer produtos brasileiros, romper contratos, reduzir exportações e ameaçar empregos. O governo estadunidense provoca o prejuízo e, em seguida, atribui a responsabilidade ao país que se recusou a atender suas exigências.


Esse método preserva a aparência de normalidade institucional. Não há golpe militar nem ocupação formal. Há uma potência usando sua posição econômica para impor custos a escolhas políticas realizadas por outro Estado.


Milei se tornou uma peça importante dessa estratégia porque oferece a Trump o que os Estados Unidos sempre procuraram na região: governos locais dispostos a apresentar os interesses de Washington como se fossem uma extensão dos interesses nacionais.


Desde que assumiu a Presidência argentina, ele transformou o alinhamento com Trump em parte central de sua identidade política. A relação não aparece em seu discurso como dependência, mas como demonstração de coragem e adesão ao mundo livre. Quanto mais sua política externa se ajusta às prioridades estadunidenses, mais enfática se torna sua retórica sobre liberdade e soberania.


A viagem ao Brasil levou essa atuação a outro patamar. Milei não se limitou a manifestar simpatia por Flávio Bolsonaro. Emprestou o peso institucional da Presidência argentina à tentativa de reorganizar a extrema direita brasileira depois da condenação de Jair Bolsonaro.

Sua participação também deu à candidatura de Flávio uma chancela externa. O apoio do presidente argentino ajudou a aproximar o lançamento eleitoral brasileiro do campo político liderado por Trump.


Eduardo Bolsonaro desempenha uma função diferente nessa articulação. Instalado nos Estados Unidos, trabalhou para transformar os conflitos judiciais de sua família em tema da política externa de Trump.


De lá, defendeu sanções contra autoridades brasileiras e condicionou o recuo das tarifas a concessões do Supremo Tribunal Federal. Em vez de buscar apoio internacional para proteger o Brasil de uma pressão estrangeira, procurou ampliar essa pressão até que as instituições brasileiras cedessem.


Não havia contradição entre o objetivo político e o dano econômico. O dano fazia parte da estratégia.


Empresas brasileiras poderiam perder mercado, exportadores poderiam ter contratos cancelados e trabalhadores poderiam sofrer os efeitos da redução da atividade econômica. Para Eduardo, esses custos eram aceitáveis desde que ajudassem a produzir uma mudança favorável a Jair Bolsonaro e a si próprio.


Sua residência permanente nos Estados Unidos formalizou uma mudança que já havia ocorrido na prática. O filho do ex-presidente passou a atuar no exterior como intermediário entre o trumpismo e a extrema direita brasileira, oferecendo ao governo dos EUA argumentos e contatos para pressionar o país do qual ainda pretende participar politicamente.


Flávio tenta aproveitar os resultados dessa operação sem assumir integralmente seus custos.


Sua candidatura depende da militância bolsonarista, do apoio internacional organizado pelo irmão e da proximidade com Trump e Milei. Ao mesmo tempo, precisa evitar que os prejuízos causados pelas medidas trumpistas recaiam sobre sua campanha.


Quando a nova tarifa começou a ameaçar empresas e setores produtivos brasileiros, Flávio foi a Washington e defendeu que sua aplicação fosse adiada para depois da eleição. A proposta dizia mais do que talvez pretendesse.


O problema não estava apenas na medida, mas no momento em que ela poderia começar a produzir efeitos. Se as tarifas atingissem a economia depois da votação, o dano permaneceria, porém deixaria de representar um risco imediato para sua candidatura.


Esse cálculo mostra como a soberania aparece no bolsonarismo. Ela vale quando serve para proteger a família de decisões judiciais, para atacar adversários ou para impedir a regulação de empresas estrangeiras. Quando uma potência econômica pressiona o Brasil em benefício dos Bolsonaro, o interesse nacional passa a ocupar um lugar secundário.


A tarifa incomoda porque pode beneficiar Lula, não apenas porque prejudica o país.


Essa posição não nasceu agora. A extrema direita brasileira utiliza símbolos nacionais, celebra as Forças Armadas, fala em independência e acusa seus adversários de servir a interesses estrangeiros. Ao mesmo tempo, busca apoio em Washington para alterar decisões tomadas por instituições brasileiras.


O nacionalismo termina quando encontra o poder colonial do império decadente.


A atuação de Milei, Eduardo e Flávio recupera uma característica antiga das relações de dependência. Nenhuma potência estrangeira consegue exercer influência duradoura apenas de fora. Precisa encontrar grupos locais capazes de apresentar seus interesses como solução para os problemas nacionais.


Esses grupos abrem espaço institucional, constroem justificativas públicas e tentam convencer a população de que a submissão representa modernização, segurança ou liberdade. Não precisam se considerar inimigos do próprio país. Em geral, acreditam que sua proximidade com a potência estrangeira os torna mais preparados para governá-lo.


É nesse sentido que a palavra “lacaio” descreve uma função política.


Não significa que Milei ou os Bolsonaro recebam uma ordem de Trump antes de cada movimento. A dependência mais profunda se revela quando a ordem sequer precisa ser dada. Os interesses já foram organizados de tal modo que cada liderança sabe o que deve oferecer e o que espera receber em troca.


Milei oferece um governo aliado no sul do continente. Eduardo trabalha para converter o poder de Trump em arma contra as instituições brasileiras. Flávio apresenta a possibilidade de levar esse alinhamento para a Presidência da República.


A articulação vai além de uma eleição. Um governo brasileiro ligado a Trump poderia enfraquecer iniciativas de integração latino-americana, abrir espaço para empresas dos EUA dominarem setores estratégicos no Brasil, alinhar a política externa do país aos interesses de Washington e tratar qualquer projeto autônomo para a região como ameaça ideológica.


É disso que se trata quando Milei sobe ao palanque de Flávio.


A cena reúne três movimentos de uma mesma operação: o presidente argentino oferece apoio institucional, Eduardo organiza a pressão a partir dos Estados Unidos e Flávio tenta transformar essa rede em poder eleitoral dentro do Brasil.


Todos falam em pátria, liberdade e soberania. Nenhum demonstra constrangimento diante de uma potência estrangeira que tarifa produtos brasileiros, sanciona autoridades e usa seu poder econômico para interferir no funcionamento das instituições nacionais.


O império continua encontrando caminhos para entrar. Desta vez, não precisa forçar o portão. A extrema direita brasileira já está do lado de dentro, esperando para abri-lo.

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