O inventário do bolsonarismo
- Ricardo Pessetti

- há 2 dias
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No interregno brasileiro, a direita começou a repartir uma herança cujo dono ainda fala. A disputa em torno de Flávio não é somente pela candidatura de 2026. É para decidir se o bolsonarismo continuará como patrimônio político da família ou ganhará outros donos, outras formas e vida própria depois dos Bolsonaro.

O inventário começa antes do cartório. Começa naquele olho que mede a varanda, na promessa que só um filho diz ter ouvido, no parente que garante não querer nada e, depois do segundo café, já sabe o preço do terreno. O relógio vale mais pelo punho que vai usar do que pela hora que marca.
Com o bolsonarismo deu-se um caso curioso: o espólio ainda respira, manda recado e escreve carta.
Mas a partilha já começou. Parte da direita não deseja abandonar o bolsonarismo. Deseja retirar dos Bolsonaro o direito exclusivo de administrá-lo.
O patrimônio cresce o olho: votos, militância digital, presença religiosa, antipetismo, discurso de ordem, a capacidade de transformar medo em pertencimento.
A briga é para saber se tudo isso continuará obedecendo ao sobrenome ou será reorganizado por partidos e lideranças que aprenderam a caminhar sem pedir licença ao patriarca.
A família levantou a casa. Agora há aliados dizendo que também pagaram os tijolos. Outros, dizendo que a casa deve cair.
Essa disputa acontece dentro do interregno descrito por Pedro H. Otoni. A Nova República perdeu força para organizar os conflitos, mas nenhuma ordem nova conseguiu ocupar seu lugar.
As instituições continuam abertas, a Constituição permanece, as eleições acontecem. O problema é que a derrota deixou de ser aceita por todos como parte de um jogo que continua.
O velho ainda mora no endereço.O novo já anda pelos cômodos com uma trena.
Nesse tempo meio aberto, meio quebrado, cada eleição escolhe um governo e experimenta uma possível República.
Jair Bolsonaro tentou resolver a sucessão escolhendo Flávio. A escolha, no entanto, não reuniu automaticamente toda a direita.
Governadores, partidos e outras lideranças conservaram projetos próprios ou evitaram reconhecer no filho a autoridade que reconheciam no pai.
A carta veio depois, como documento colocado sobre a mesa. Bolsonaro chamou Flávio de candidato e porta-voz, pediu unidade e tentou registrar a própria vontade. Era uma espécie de testamento lido com o dono da casa ainda vivo.
Só que o documento também entrega o receio. Ninguém precisa lembrar em público quem é o herdeiro quando a família inteira já aceitou a divisão. Ao reafirmar a voz do filho, Bolsonaro mostrou que sua vontade ainda pesa, mas já não encerra sozinha a conversa.
A carta tentou fechar a partilha. Terminou provando que ela existia. Claro, nem toda demora em apoiar Flávio significa rebelião. Partido calcula palanque, governo, vice, eleição estadual.
Na política brasileira, um “não” pode querer dizer “ainda não”. Em certos dias, quer dizer apenas “quanto?”.
Partido político não faz voto de pobreza. Mas interesses diferentes podem terminar no mesmo corredor sem combinar o caminho. Renan Santos entrou nessa casa sem parentesco e sem obrigação de respeitar o testamento.
O Missão tenta transformar a experiência do MBL em partido e direção própria.
Renan olha para o bolsonarismo como quem olha uma empresa que abriu um mercado e perdeu o direito de administrá-lo sozinha.
Não pede uma extrema-direita mais mansa. Procura dar organização, linguagem geracional e estrutura permanente a uma radicalidade que já não aceita depender da família.
Flávio reivindica a herança. Renan disputa sua reorganização. A diferença parece pequena, mas muda o tamanho do problema. O eventual enfraquecimento dos Bolsonaro não significa, por necessidade, enfraquecimento do autoritarismo.
O movimento pode perder o sobrenome e ganhar o método. Pode trocar o improviso doméstico por partido, ruído por disciplina, família por organização de base.
Tem ideia perigosa que, depois de muito gritar, aprende a falar baixo.
Por isso 2026 possui mais de um tempo. O campo democrático encara a eleição com urgência porque o país já viu uma derrota nas urnas ser tratada como autorização para romper a ordem. Jair Bolsonaro foi condenado pelos crimes ligados à tentativa de golpe.
Mas vencer uma eleição não fecha o interregno. Lula é liderança histórica, dessas que não deixam substituto pronto numa gaveta. A história não trabalha com peça de reposição. Lideranças desse tamanho deixam falta. Parte da direita sabe disso.
Enquanto disputa o governo, também procura saber quem comandará seu campo quando Lula já não estiver na urna. Não porque aceite perder agora. A eleição está aberta, será dura.
A questão é outra. A urna decide um mandato. O inventário pode decidir quem administrará a direita depois dele.
Família briga meses pela casa e aparece sorrindo na fotografia do Natal. A fotografia nunca mostra a escritura. O patriarca continua presente, mandando recado e dizendo quem deve falar por ele. Mesmo assim, já tem gente escolhendo os móveis.
Porque o que está sendo dividido não é somente uma candidatura. É o direito de transformar uma força criada por uma família num projeto capaz de sobreviver a ela.
E, num país em interregno, quem organizar essa herança poderá disputar também as regras da casa seguinte.



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