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Ideologia é o nome do pensamento dos outros

  • Foto do escritor: Ricardo Pessetti
    Ricardo Pessetti
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

A extrema direita não combate a ideologia. Combate o direito de outras ideologias disputarem a sociedade com a sua.



A palavra costuma aparecer quando uma conversa que precisa ser encerrada. Um professor propõe discutir racismo e alguém denuncia “doutrinação”. Uma escola apresenta informações sobre prevenção da violência sexual e logo surge a acusação de “ensinamento sobre sexo”. Uma política de igualdade é descrita como tentativa de dividir a população.


Não se examina o conteúdo da proposta. Pouco importa saber se ela pode proteger uma criança, corrigir uma desigualdade ou ampliar o acesso a um direito. Depois que recebe o rótulo de ideológica, passa a ser tratada como algo que entrou de fora para contaminar uma ordem até então saudável.


Essa ordem, porém, nunca foi neutra.


Durante muito tempo, a escola ensinou uma história do Brasil na qual a escravidão aparecia suavizada, os povos indígenas ocupavam algumas páginas do passado e a ditadura militar podia ser apresentada como simples reação a uma ameaça. Isso também era uma interpretação política do país. Parecia natural porque havia se tornado habitual.


O mesmo acontece em outras áreas. Uma família na qual a mulher assume quase todo o trabalho doméstico transmite uma ideia sobre homens e mulheres, mesmo quando ninguém fala sobre gênero. Uma cerimônia cristã realizada dentro de uma instituição pública estabelece uma posição sobre religião e Estado, ainda que seja chamada apenas de tradição. Uma política de segurança baseada na suspeita permanente sobre jovens negros carrega uma visão de sociedade, mesmo quando se apresenta como técnica.


A ausência de debate nunca significou ausência de ideologia. Muitas vezes, significou apenas que uma visão de mundo havia conquistado poder suficiente para não precisar explicar a si mesma.


É dessa vantagem que a extrema direita procura se apropriar.


Ela apresenta suas escolhas como continuação espontânea da vida: o pai deve comandar a família; a polícia deve receber liberdade para agir independe de qualquer lei; a religião majoritária pode orientar o Estado; a desigualdade seria resultado do esforço ou da falta dele; a autoridade perderia força quando é questionada. Nada disso aparece como programa político. Recebe nomes como ordem, mérito, valores e bom senso.


Ideologia seria o que começa depois.


Começa quando uma mulher contesta o lugar que lhe foi reservado. Quando uma pessoa negra exige que o racismo deixe de ser tratado como exceção. Quando uma criança aprende que nenhuma relação familiar autoriza violência. Quando um professor mostra que o passado brasileiro foi construído por conflitos, interesses e disputas de poder.


O recurso é eficiente porque evita o debate propriamente político. Em vez de justificar por que determinada hierarquia deve continuar, acusa-se quem a contesta de querer destruir a família, perseguir cristãos ou corromper crianças. A divergência deixa de ser uma disputa sobre o funcionamento da sociedade e passa a ser apresentada como ameaça moral.


Por isso a infância ocupa lugar tão frequente nesse discurso. Poucas imagens mobilizam tanto medo quanto a de uma criança em perigo. Basta sugerir que professores, artistas, universidades ou movimentos sociais pretendem interferir na formação dos filhos para que qualquer discussão se torne suspeita. O conteúdo real desaparece. Resta uma população convocada a proteger as crianças de inimigos muitas vezes inventados.


Enquanto a atenção se concentra nesses fantasmas, projetos bastante concretos avançam.

Retiram-se conteúdos das escolas. Professores passam a trabalhar sob vigilância. Políticas de igualdade são descontinuadas. Uma religião ganha acesso privilegiado ao poder público. A violência de Estado recebe cobertura moral. Direitos conquistados passam a ser apresentados como concessões excessivas feitas a grupos que estariam pedindo demais.


Há ideologia em cada uma dessas decisões. Há uma concepção de autoridade, de família, de cidadania e de liberdade. Há também interesses materiais. Certas formas de organizar a sociedade preservam patrimônio, distribuem oportunidades, protegem privilégios e mantêm pessoas em lugares diferentes da hierarquia social.


Chamar tudo isso de normalidade serve para esconder quem ganha com sua permanência.


O professor que discute racismo é acusado de fazer política. O pastor que indica candidatos diante de uma comunidade religiosa estaria apenas defendendo princípios. O movimento que protesta na rua é militante. O empresário que financia campanhas, institutos e influenciadores estaria apenas participando do debate público. A universidade teria lado. O quartel, o púlpito e o mercado seriam instituições naturalmente desinteressadas.


Essa divisão não descreve a realidade. Ela organiza o campo político para que apenas um grupo tenha sua presença percebida como ameaça.


Não há problema em reconhecer que uma proposta é ideológica. Toda proposta relevante nasce de alguma compreensão sobre a sociedade, seus conflitos e o futuro que se deseja construir. O problema começa quando um grupo se concede o privilégio de possuir valores, enquanto os demais teriam apenas interesses; de defender a verdade, enquanto os outros fariam propaganda; de representar a população, enquanto seus adversários seriam militantes.


A extrema direita acusa os outros de ideologia porque precisa esconder a própria.


Seu projeto depende de fazer parecer que as posições que defende já estavam dadas antes da política e deveriam continuar existindo depois dela. Assim, a desigualdade pode parecer destino, a autoridade pode dispensar justificativa e o privilégio pode atravessar gerações sem precisar dizer seu nome.


Ideologia não é somente aquilo que tenta mudar o mundo.


Também é aquilo que trabalha para mantê-lo exatamente como está (ou piorá-lo) — sobretudo quando consegue convencer os beneficiados e os prejudicados de que nenhuma escolha foi feita.

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