Quando a dor procura o corpo
- Ricardo Pessetti

- há 6 horas
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Automutilação não começa no ferimento. Antes dele, costuma existir um sofrimento que a criança ou o adolescente ainda não conseguiu reconhecer, explicar ou dividir com alguém.

Uma marca aparece no braço. Um corte, uma queimadura, um ferimento escondido sob a manga. Para quem descobre, o impulso pode ser procurar imediatamente uma explicação: perguntar por que aquilo aconteceu, verificar o celular, procurar culpados, exigir que a criança prometa não repetir.
O ferimento precisa ser cuidado. Mas a resposta não pode terminar nele.
A revisão integrativa realizada por Danyela dos Santos Lima e outros pesquisadores reúne estudos sobre os fatores associados à automutilação e mostra que não existe uma causa única capaz de explicar todos os casos. O comportamento pode surgir no encontro entre conflitos familiares, violência, abandono, bullying, abuso, isolamento, sofrimento psíquico, transtornos mentais e dificuldades para reconhecer ou comunicar aquilo que se sente.
Em vez de olhar apenas para a pele e perguntar “por que você fez isso?”, talvez seja necessário compreender o que estava acontecendo na vida daquela criança antes de o sofrimento encontrar uma forma visível.
A automutilação não deve ser reduzida a uma tentativa de chamar atenção. Essa frase, repetida com frequência, costuma funcionar como julgamento. Faz parecer que a pessoa está encenando uma dor, manipulando os adultos ou procurando alguma vantagem.
Mesmo quando existe uma tentativa de ser percebido, isso não torna o sofrimento menos real. Ao contrário: mostra que alguma coisa precisava chegar ao conhecimento de alguém e não encontrou outro caminho.
O ferimento pode aparecer como tentativa de aliviar uma angústia intensa, interromper pensamentos difíceis de suportar ou transformar uma dor difusa em algo concreto. A lesão não explica sozinha o que está acontecendo, mas indica que os recursos disponíveis para lidar com aquela experiência já não estavam sendo suficientes.
Uma criança nem sempre possui palavras para dizer que sente vergonha, culpa, raiva, medo ou desamparo. Pode não compreender por que deixou de se sentir pertencente à escola, à família ou ao grupo de amigos. Às vezes, percebe apenas que alguma coisa está insuportável.
Quando faltam linguagem, escuta e segurança para dividir o que se sente, o corpo pode se tornar o lugar em que esse sofrimento finalmente aparece.
Por isso, procurar uma causa isolada tende a empobrecer a compreensão. Uma discussão em casa, uma situação de bullying ou um conteúdo encontrado na internet podem ter importância, mas raramente contam toda a história. Diferentes experiências podem se acumular, reforçar-se e atravessar a vida da mesma pessoa.
A infância não passa sem deixar marcas. Violência física, abuso sexual, negligência, humilhações constantes, dificuldades econômicas e rompimentos afetivos podem comprometer a forma como uma criança aprende a enfrentar o sofrimento. Isso não significa que toda experiência dolorosa conduzirá à automutilação nem que o futuro esteja determinado pelo que aconteceu.
Significa reconhecer que situações mantidas em segredo e sem cuidado podem continuar agindo por muito tempo.
O ambiente familiar ocupa um lugar importante nessa análise porque a casa pode ser, ao mesmo tempo, parte do sofrimento e parte da proteção. Críticas constantes, violência doméstica, conflitos prolongados, ausência de apoio e problemas relacionados ao uso de álcool podem produzir insegurança e ampliar a sensação de isolamento.
Reconhecer essa influência não significa procurar automaticamente um culpado. Famílias também podem estar atravessadas por dificuldades que não sabem nomear ou enfrentar. O objetivo não é transformar a investigação do sofrimento num julgamento doméstico, mas compreender como os vínculos mais próximos participam da maneira pela qual uma criança interpreta aquilo que sente e procura ajuda.
A reação dos adultos, quando o comportamento é descoberto, pode definir se haverá abertura para o cuidado ou um novo fechamento.
O medo é compreensível. Também são compreensíveis a raiva, o desespero e a sensação de fracasso. Um pai ou uma mãe pode olhar para o ferimento e pensar que deveria ter percebido antes. Pode sentir vontade de vigiar todos os passos, retirar o celular, proibir contatos ou exigir uma explicação imediata.
Mas acusar, ridicularizar, ameaçar ou tratar o comportamento como chantagem aumenta a vergonha. A criança aprende que revelar o sofrimento produz punição e passa a escondê-lo com mais cuidado.
A primeira resposta precisa mostrar que ela não será abandonada nem castigada por ter revelado aquilo que está vivendo.
Isso não significa ignorar riscos, deixar de estabelecer limites ou fingir que nada aconteceu. Significa separar proteção de punição. O adulto pode restringir o acesso a objetos perigosos, acompanhar de perto a situação e buscar avaliação profissional sem transformar o cuidado numa represália.
A internet também precisa ser observada com mais precisão.
Ela não cria sozinha a automutilação, mas pode apresentar a prática a alguém que já se encontra vulnerável. Imagens, relatos, desafios e comunidades podem oferecer formas de executar a lesão e produzir a impressão de que aquele comportamento é comum ou inevitável.
A repetição diminui o estranhamento. Um sofrimento que antes não possuía nome encontra uma explicação pronta e um modelo para se expressar.
Ao mesmo tempo, a internet pode oferecer um encontro que não existia fora da tela. Uma criança isolada pode encontrar pessoas que parecem compreender aquilo que ninguém havia percebido em casa ou na escola. Esse reconhecimento pode aliviar a solidão, mas também pode aprisioná-la numa identidade organizada em torno da dor.
O grupo acolhe quando escuta sem julgamento. Torna-se perigoso quando normaliza a autolesão, reforça o segredo ou transforma o sofrimento numa condição para continuar pertencendo.
Por isso, não basta medir quantas horas a criança permanece conectada. É preciso conhecer as relações que ela constrói, os conteúdos que acompanha e o lugar que ocupa nas comunidades das quais participa.
Vigiar sem conversar pode apenas ensinar a esconder. Conversar exige suportar respostas incompletas, pausas, negações e silêncios. Muitas crianças não conseguirão explicar imediatamente o que aconteceu. Algumas talvez nem saibam.
O cuidado precisa começar antes da explicação completa.
A revisão dos fatores associados à automutilação ajuda a retirar o comportamento do campo do escândalo e colocá-lo no campo da responsabilidade. A lesão não deve ser romantizada nem tratada como linguagem inevitável da adolescência. Também não pode ser reduzida a desobediência, manipulação ou falta de disciplina.
Existe uma pessoa tentando lidar com uma dor para a qual ainda não encontrou recursos suficientes.
O atendimento profissional é parte importante dessa resposta porque permite avaliar os riscos, investigar o contexto e construir estratégias de cuidado. Mas o acompanhamento não substitui os vínculos cotidianos. A criança continuará voltando para casa, encontrando colegas, entrando na internet e observando a maneira como os adultos reagem ao que ela sente.
O tratamento não acontece apenas no consultório. Ele também depende da possibilidade de existir fora dele sem precisar esconder a dor para proteger os outros.
A pele não pode carregar tudo sozinha.
O ferimento precisa ser tratado, mas também é necessário compreender o que aquela criança estava vivendo, reconstruir espaços de confiança e criar condições para que ela peça ajuda antes de voltar a machucar o próprio corpo.
Talvez a conversa não deva começar com uma cobrança: “Por que você fez isso?”
Talvez precise começar de outro lugar: “O que estava acontecendo com você — e como podemos enfrentar isso juntos?”
Referência: LIMA, Danyela dos Santos et al. Automutilação e seus fatores determinantes: uma revisão integrativa. Research, Society and Development, v. 10, n. 9, 2021. DOI: 10.33448/rsd-v10i9.18155.



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