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A história do cocô

  • Foto do escritor: Ricardo Pessetti
    Ricardo Pessetti
  • há 6 minutos
  • 6 min de leitura

Ninguém me avisou que uma parte considerável da paternidade seria aprender a comemorar peido, investigar cocô e tratar com enorme seriedade tudo aquilo que o corpo de uma criança resolve pôr para fora.



Joaquim agora está viciado numa música do Cocoricó sobre cocô. A música se chama: A história do cocô.


Pede toda hora. De novo. Mais uma. Outra vez. Criança quando gosta de música se muda para dentro dela. A música passa a morar na casa, entrar no banho, vai para o carro, aparece no almoço. Quando a gente percebe, está lavando louça cantando sobre cocô sem Joaquim nem estar por perto.


♪ Já tô acostumado a ser pisadoMaltratado. Ser jogado no esgoto.Cocô. Faz o cocô. Cocô.Ele faz o cocô. Yeah. Yeah.Uh. Ele faz o cocô. Uôuô. ♪


Acho justo. O cocô participa da vida dele desde o primeiro dia.


Nasceu e já fez mecônio, aquela coisa preta, grossa, meio petróleo, meio piche, que ninguém deveria chamar de cocô porque parece material usado para impermeabilizar telhado.


Eu vi e fiquei satisfeito. Meu filho estava funcionando.


Na minha família, intestino nunca foi exatamente órgão de contemplação. Tem ímpeto natural de liberdade. Gente nossa não costuma guardar muita coisa, pelo menos não nesse departamento. Imaginei que Joaquim honraria a tradição.


Não honrou, ao menos no começo da sua vida. Vieram as cólicas.


Aí descobri uma coisa que ninguém me contou antes de ser pai: a felicidade de um homem adulto pode depender inteiramente de um peido de bebê.


Joaquim chorava, se contorcia, ficava vermelho, apertava as perninhas. Eu e Ana fazíamos massagem, dobrávamos joelho, levantávamos perna, dávamos colo, andávamos pela casa, esfregava as mãos até ficarem pelando para colocar na barriga dele. Qualquer conhecimento adquirido em décadas de vida perdia importância diante daquele intestino pequeno que não conseguia fazer o serviço.


Quando saía um pum, comemorávamos. Comemorávamos mesmo.


— PEIDOU!


Alegria de gol do Corinthians em final.


Quando fazia cocô, então, parecia classificação para a Libertadores. A gente olhava um para o outro com aquela felicidade dos que tinham atravessado uma provação.


— Fez!


Quem não tem filho talvez ache exagero. É porque nunca viu um bebê parar de chorar depois de conseguir cagar. Ali não há filosofia que concorra.


Depois vieram os cocôs-explosão. Esses já tinham outra natureza. Ficavam escondidos durante horas, organizando alguma ofensiva, até resolverem sair de uma vez. A fralda podia ter tecnologia aeroespacial, barreira dupla, elástico, promessa impressa na embalagem. Não adiantava. Saía pela perna. Subia pelas costas.


Chegava a lugares do corpo que levantavam dúvidas sobre anatomia. Nunca entendi como um cocô produzido lá embaixo conseguia aparecer quase na nuca. Bebê tem dessas engenharias.


Depois Joaquim entrou numa fase em que parecia esperar que a gente tirasse a fralda para fazer cocô. Era hora do banho. Eu despia, tirava a fralda, pegava toalha, sabonete, essas coisas. Joaquim via o caminho livre e pronto. Começava. Ia cagando até o banheiro. Uma trilha.


João e Maria tinham migalha de pão. Eu tinha cocô. Dava para saber exatamente por onde ele havia passado.


Pai e mãe perdem cedo uma parte importante do nojo. Não todo. É bom conservar alguma civilização. Mas certas fronteiras desaparecem.


Você limpa bunda, nariz, vômito, catarro. Recebe comida mastigada na mão — e precisa comer assim para incentivar a alimentação. Descobre substância desconhecida na camiseta e cheira para saber o que é, decisão que, antes dos filhos, pareceria sinal de transtorno.


Teve a história do chocolate. Joaquim roubou um chocolate aqui em casa. Comeu escondido, se lambuzou e me lambuzou também. Chocolate na mão, na boca, no rosto, na roupa. No meio da operação, fez cocô.


Troquei. Limpei. Vida que segue.


Depois vi uma mancha marrom nas costas da minha mão. Chocolate. Claro. Passei a língua.

Não era chocolate.


Há acontecimentos que modificam definitivamente um homem. Esse foi um deles. Não vou explicar mais.


Depois os cocôs começaram a ficar diferentes. Foram perdendo aquela aparência abstrata de coisa de bebê. Deixaram de ser pasta, explosão, acidente líquido. Viraram cocô. Cocô de gente.


Esse momento devia aparecer nos livros de desenvolvimento infantil. Um dia seu filho produz alguma coisa que você olha e pensa:


— Rapaz.


Isso sim é um cocô. Com começo, meio e fim.


Aí Joaquim começou a fazer dentro do box. No banho. Na banheira. O mais curioso era a reação.


Fazia e fugia. Saía da banheira numa velocidade enorme, apontando para aquilo como se tivesse acabado de encontrar um animal invasor.


— ECA!


Ora, meu camarada. Até trinta segundos atrás isso fazia parte de você. Mas talvez haja alguma coisa importante aí. A criança vai aprendendo também que algumas coisas do corpo, depois que saem, deixam de ser do corpo.


Enquanto estão dentro, ninguém tem nojo. Saiu, virou problema.


O cocô é nosso por uma intimidade absoluta e, imediatamente depois, passa a ser aquilo do qual queremos distância.


Joaquim aprendeu rápido. Começou a reconhecer cocô de cachorro na rua. Não podia ver.


— ECA! ECA! ECA! Cocô, cocô! Fedorrr!


Apontava, indignado, quase cobrando providência municipal.


Era interessante assistir ao nascimento do nojo.


Nojo também se aprende.


A criança pequena põe tudo na boca, pega coisa do chão, enfia dedo onde adulto já aprendeu a não enfiar. Depois vai descobrindo as fronteiras. Isso pode. Isso não. Isso é comida. Isso é sujeira. Isso é meu corpo. Isso saiu do meu corpo e agora ninguém encosta.


Cidadania começa, em boa parte, no banheiro — ou na falta dele. Talvez por isso criança ache cocô tão engraçado. Peido também.


Joaquim descobriu que soltar pum na cara do pai produz uma reação excelente. Vinha perto. Encostava a bunda. Esperava. Pum.


Depois ria, num estado de felicidade difícil de alcançar por outros meios. Eu reclamava, evidentemente. O que piorava tudo. Porque criança descobre muito cedo que a graça não está apenas no peido. Está na dignidade do adulto sendo destruída por ele.


Quanto mais eu dizia:


— Joaquim!


Mais ele ria. E repetia. Ainda repete. Tem coisa que educação nenhuma consegue derrotar porque também é muito engraçada.


Ana, porém, trata cocô com outra seriedade.


Ela analisa.


Não joga uma fralda fora sem antes fazer uma espécie de perícia. Olha cor. Consistência. Quantidade. Frequência. Se está ressecado. Se está mole. Se tem alguma coisa diferente.


Às vezes fica ali examinando com uma concentração que só vi em pesquisador diante de uma descoberta histórica. Acho que foi dessa cena que Daniel Kahneman entendeu o Sistema 2 do livro “Rápido e Devagar”.


Parece ler a vida nas rachaduras do cocô.


— Comeu pouca fibra.— Precisa tomar mais água.— Esse está diferente.


E eu olho também. Porque pai e mãe chegam a esse ponto. Duas pessoas adultas em volta de um cocô, interpretando.


Antes de ter filho, se alguém me dissesse que eu discutiria seriamente a consistência das fezes de outra pessoa durante o jantar, consideraria uma ameaça.


Hoje acontece. E não é nojento na hora.


Ou é, mas o nojo ficou menor que o cuidado.


Talvez seja essa a parte que quem não cuida de criança não percebe. A intimidade com um filho não é feita apenas de beijo, abraço, cheiro de cabelo, fotografia bonita e mãozinha segurando dedo. É feita também daquilo que o corpo produz quando não está bonito.


Febre. Catarro. Vômito. Xixi. Cocô.


Cuidar de alguém é conhecer também seus restos.


É estranho chamar isso de amor, mas é.


Não aquele amor de cartão, que chega limpo, de roupa passada. É um amor com lenço umedecido na mão. Amor que sabe quando o intestino funcionou.


Que comemora peido. Que percebe pela fralda que falta água. Que segura a criança enquanto ela vomita e, às vezes, recebe o vômito na própria roupa sem nem ter tempo de sentir nojo.


O corpo do filho vai deixando de ser um mistério e passa a ser uma espécie de território que pai e mãe aprendem a observar.


Depois ele cresce. E começa justamente o movimento contrário. Aprende a fechar a porta. Pede privacidade. Não quer ninguém olhando.


Um dia não contará mais se fez cocô, e ainda bem. A autonomia também passa por conseguir cuidar sozinho das coisas que um dia precisaram de dois adultos comemorando.


No começo, Joaquim dependia de nós até para entender o desconforto do próprio intestino. Hoje sabe apontar cocô na rua, fugir do que fez na banheira e anunciar com absoluta convicção:


— ECA!


Daqui a pouco limpa sozinho. Depois fecha a porta. Depois não me interessa mais saber.


É o destino correto.


Enquanto isso, ele pede a música do Cocoricó.


Cocô de novo. Eu coloco. Ele ri e dança.


Talvez não saiba que existe uma história inteira do cocô dele guardada aqui em casa. O mecônio, as cólicas, os peidos comemorados, as explosões, o caminho até o box, a banheira abandonada às pressas, os cachorros da rua.


E, infelizmente para mim, o chocolate.


Essa parte eu preferia esquecer.Não esqueço. Pai guarda umas memórias esquisitas.Tudo parece importante porque, por algum tempo, é.


Então Joaquim canta sobre cocô. Eu canto junto.Ana provavelmente analisaria o cocô da música se pudesse.


E seguimos. Há quem ache assunto de mau gosto. Compreendo. Mas pai que é pai e mãe que é mãe sabem: depois de certa quantidade de fraldas, a dignidade aprende a conviver com muita coisa, inclusive com a falta dela.


A gente se acostuma. Às vezes se preocupa. Às vezes comemora.


E, em circunstâncias que eu jamais admitiria antes de Joaquim nascer: olhar para um belo cocô e pensar, satisfeito:


— Ele está ótimo.

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