Famo, famo, papai!
- Ricardo Pessetti

- há 3 dias
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Joaquim chega por trás da cadeira. Primeiro encosta no meu braço. Depois tenta passar por baixo, entre a mesa e meu joelho, onde quase não cabe. Põe a mão no teclado, aperta várias teclas ao mesmo tempo e chama:
— Famo, famo, papai.(tradução: vamo, vamo, papai).

Eu digo que já vou. Ele nunca entende esse “já”. Criança pequena não sabe desse tempo que adulto inventou para não dizer nem agora nem não.
“Já” pode ser depois da mensagem, depois do relatório, depois da reunião, depois de uma coisa que puxa outra e, quando se vê, o dia foi embora sem ter ido a lugar algum. Joaquim insiste:
— Fem, fem, papai.(tradução: vem, vem, papai.)
Desta vez, pega minha mão, puxa a camiseta. Eu trabalho em casa. Digo isso com certa exibição, às vezes até com gratidão. Posso tomar café perto dele, ouvir quando acorda, vê-lo atravessar o corredor ainda com o rosto amassado de sono e os cabelos levantados.
Posso dar o café da manhã, almoçar, dar o café da tarde, levá-lo ao parquinho de areia, dar banho e jantar com ele. Posso participar de uma parte da vida que, para muito pai, acontece toda enquanto está fora.
Não preciso chegar à noite e perguntar como foi o dia. Em muitos momentos, eu estava ali. Ali mais ou menos. Porque trabalhar em casa tem disso: muitas vezes, a gente fica perto sem estar disponível, escuta sem poder responder, vê uma vida inteira passando pela porta e precisa continuar olhando para o computador.
Antes, trabalho tinha endereço. A pessoa saía, fechava a porta, pegava caminho. Havia uma distância entre a casa e o serviço, mesmo que fosse ruim, cansativa, demorada. O corpo ia para um lugar e a falta ficava no outro. Trabalhava-se longe do filho e, por isso, ao menos a ausência tinha uma explicação simples.
Agora, o trabalho mora na casa. Senta à mesa, ocupa a tomada, espalha fio, caderno, prazo, chamada, barulho de notificação.
Não vai embora quando termina o expediente porque já estava dentro. Basta abrir o computador para o escritório aparecer onde, cinco minutos antes, havia brincadeira e descanso.
A casa continua sendo casa. O trabalho é que não respeita mais as paredes riscadas pelo Joaquim.
Joaquim não entende por que o pai que está ali não pode ir. E não tem mesmo por que entender. Para ele, meu corpo é prova suficiente. Eu não saí. Não bati a porta da frente. Não entrei no carro. Não fui para uma cidade longe. Estou sentado a poucos passos do trator sem as rodas, da bola, dos carrinhos, do lugar onde ele inventou alguma coisa que precisa ser vista na hora.
Ele olha e conclui: papai pode.
Sou eu que sei que não posso. Ou acho que não posso. Tem reunião. Tem texto. Tem prazo. Tem gente esperando resposta. Tem conta que depende daquele trabalho. Não é distração. Não estou passando tempo. Estou garantindo parte da vida que existe justamente ao redor da cadeira onde Joaquim vem me chamar.
A comida, a casa, o brinquedo, o remédio, a roupa, tudo isso também passa pelo teclado. Mas criança não come justificativa. Ela não vê o boleto dentro do computador. Vê o pai escolhendo a tela quando ela pediu a mão.
Essa é uma injustiça sem culpado certo. Eu trabalho porque amo. Ele me chama porque ama. E o amor de um atravanca o amor do outro.
Joaquim põe a mão no teclado.
Algumas letras aparecem no documento. Depois tenho que fazer alguns “Ctrl+Z”. Abre uma janela, fecha outra, muda o lugar do cursor e encontra umas configurações que eu nem conhecia. Eu tiro a mão dele, com cuidado na maioria das vezes, com menos cuidado quando estou cansado.
— Papai está trabalhando.
Ele me olha. “Trabalhando.” Para ele, uma palavra comprida e sem desenho. Não explica por que meu olho fica preso, por que minha voz muda quando alguém entra na chamada, por que posso falar com gente que não está na sala e não posso brincar com quem está.
Aí ele chama de novo:
— Famo, papai. Lobo imau.(tradução: vamos, papai. Brincar de lobo mau.)
Tem uma humildade intensa nesse chamado. Não está pedindo grande coisa. Não planejou passeio, não quer viagem, presente, parque, festa. Quer que eu levante da cadeira e vá até algum lugar que talvez esteja dois metros adiante. Quer mostrar um carrinho passando debaixo do sofá. Quer se esconder atrás da cortina, para que eu o encontre com rugidos de lobo. Quer minha presença empregada numa coisa sem utilidade.
O trabalho quase sempre tem utilidade. Brincar, não.
É por isso que o trabalho vence tantas vezes. O que é útil encontra defesa fácil. Preciso terminar. Preciso entregar. Preciso responder.
A brincadeira pode esperar porque não produz nada que caiba numa planilha, não evita cobrança, não garante nota emitida. Pode ser adiada para depois do almoço, para o fim da tarde, para amanhã, para quando houver tempo.
Só que tempo não aparece livre em cima da mesa. A gente é que tira de algum lugar.
Quando termino uma tarefa, já existe outra. Quando fecho uma janela, outra chama. Trabalho feito por computador parece não acabar porque não tem a materialidade do fim. É que nem pia de cozinha. Pode-se lavar quantos copos quiser, eles nunca acabam. Há sempre mais uma mensagem, mais uma revisão, mais uma pendência que poderia ser resolvida antes de levantar. O serviço não diz basta. A criança diz:
— Famo, papai.
Eu respondo:
— Só um pouquinho.
“Pouquinho” também é palavra de adulto. Pode durar o tempo inteiro da infância. Não por abandono. Não porque o pai não ame, não cuide, não participe. Às vezes, por amor mesmo. Esse amor esquisito que trabalha para sustentar a vida e, enquanto sustenta, deixa de viver um pedaço dela.
Essa contradição aperta. Estar perto de Joaquim é uma vantagem que, em certos dias, parece castigo.
Eu o vejo querendo brincar e não posso fingir que não vi. Se trabalhasse fora, talvez sentisse saudade. Trabalhando ali, sinto culpa. A saudade tem distância. A culpa senta ao lado.
Escuto os passos dele no corredor, a risada, a conversa com a mãe, o barulho dos brinquedos. Sei quando caiu, quando se zangou, quando encontrou alguma coisa. A vida dele acontece ao alcance do ouvido. E eu sigo digitando.
É como estar diante de uma janela que dá para um lugar onde a gente queria estar, mas não pode atravessar porque prometeu ficar deste lado. Tem dia que atravesso. Levanto sem terminar. Vou brincar, sento no chão, empurro trator, faço voz, escondo bicho, invento estrada. Depois volto para o computador com o trabalho atrasado e uma sensação boa misturada com outra ruim.
A vida adulta tem essa mania de cobrar até o que fez bem. Se brinco, penso no serviço. Se trabalho, penso no filho. Fico devendo aos dois.
Não há equilíbrio nisso. Equilíbrio é palavra de palestra, usada por quem desenha duas partes iguais numa balança e chama de solução. Casa com criança não funciona em partes iguais. Tem dia que o trabalho ocupa tudo. Tem dia que a criança adoece e não sobra para o serviço. Tem hora em que é preciso dizer não. Tem hora em que o não é só hábito, resposta pronta de quem já esqueceu de olhar o pedido.
O problema não é Joaquim esperar. Ele precisa aprender que o pai não pode tudo na hora que ele quer. Casa também é lugar de limite. Amor sem limite vira outra coisa, pesa na criança, torna o mundo obrigado a obedecer. Mas há espera que educa e espera que afasta.
Nem sempre sei qual estou oferecendo. Quando digo “papai está trabalhando”, posso estar ensinando que existem responsabilidades. Posso também estar ensinando que tudo o que chega pelo computador passa na frente dele.
Ele não conhece a intenção. Conhece a repetição. Se toda vez que chama, encontra as costas da cadeira, a mão no teclado, o olho no documento, vai aprendendo alguma coisa. Talvez aprenda a esperar. Talvez aprenda a desistir. Essa parte ninguém vê na hora.
Criança não entrega relatório da ausência. Não chega no fim do mês dizendo quantas vezes procurou o pai e recebeu um “já vou”. Não organiza a falta em números. Só muda o jeito de chamar. Chama menos. Brinca sozinho. Procura outra pessoa. Cresce.
A gente costuma comemorar autonomia sem perguntar de onde veio. Às vezes, veio de confiança. Às vezes, veio de cansaço.
Joaquim ainda insiste. Ainda vem à cadeira, aperta meu braço, põe a mão no teclado, tenta virar meu rosto. Tem fé que o pai vai levantar. A insistência dele é uma confiança que ainda não sofreu o bastante para ficar educada. Isso me comove e me acusa.
Não quero ser o pai que abandona o trabalho sempre que o filho pede. Nem conseguiria. Também não quero ser aquele que passa a infância dizendo que faz tudo por ele enquanto não faz nada com ele.
Há uma diferença entre sustentar a vida da criança e participar dela. As duas coisas custam. As duas dão trabalho. Uma aparece na conta paga. A outra desaparece depois que a brincadeira termina.
Talvez por isso seja tão fácil sacrificar a segunda. Ninguém cobra oficialmente o pai que não viu o filho passar o carrinho debaixo da mesa. Não chega multa, mensagem, prazo. Não há chefe perguntando por que ele não sentou no chão.
A infância não manda lembrete. Só passa. E passa sem alarde.
Não é preciso transformar cada convite numa tragédia antecipada. Seria impossível viver assim. Pai não precisa olhar para o filho todo dia como se estivesse se despedindo. Criança também precisa de normalidade, de pai trabalhando, cansado, indisponível às vezes, humano.
Mas convém escutar o tamanho escondido em algumas coisas pequenas.
Joaquim não quer brincar o dia inteiro comigo. Quer que eu entre um pouco no mundo dele. Pede companhia, não devoção. Depois vai embora, esquece de mim, encontra outra coisa, ocupa a casa como se eu nem existisse. Criança também sabe largar o pai quando consegue encontrá-lo.
Talvez eu precise aprender a fazer o mesmo com o trabalho. Largar por alguns minutos. Não esperar que termine, porque não termina. Não concluir tudo, porque sempre sobra. Fechar o computador no meio de uma ideia, deixar uma resposta para depois, aceitar que o mundo profissional sobreviva sem mim pelo tempo de uma estrada de trator.
É difícil.
O trabalho se apresenta como necessidade. O filho, por estar perto, parece garantido.
Não está.
Nenhuma presença está garantida só porque divide o endereço. Trabalhar em casa me deu coisas que eu não teria de outro jeito. Vi Joaquim acordar de muitas sonecas. Almocei com ele em dias comuns. Escutei palavras nascendo. Pude interromper uma manhã para atender um choro, acompanhar febre, dar beijo, pegar no colo. Isso é um oceano.
Joaquim vem de novo:
— Fem, papai.
Desta vez, não põe a mão no teclado. Põe a mão na minha perna e espera. Olho para a tela. Ainda falta. Sempre falta. Salvo o documento. Levanto.
Não porque o trabalho perdeu importância, nem porque brincar seja mais nobre. Levanto porque, naquele momento, a coisa que eu estava fazendo podia me esperar e Joaquim ainda não aprendeu que pai também demora.
Vou atrás dele. No corredor, vira para conferir se estou indo mesmo.
— Famo.
E vai.
Trabalhar em casa é isso também: ter a felicidade de poder acompanhar o filho e o incômodo de descobrir quantas vezes a gente escolhe não acompanhar.
Hoje fui. Amanhã talvez diga que não posso.Depois me arrependa. Em outro dia, levante sem pensar.
Não há pai pronto dentro dessa cadeira. Há um homem tentando pagar as contas sem gastar toda a infância do filho.
Joaquim chama:
— Fem, fem, papai.
Eu fecho o computador e vou.
Não sempre. Mas desta vez, vou.



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