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O poder adulto diante do choro

  • Foto do escritor: Ricardo Pessetti
    Ricardo Pessetti
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Uma criança chora para alcançar o adulto. É na resposta que a autoridade se transforma em cuidado ou em medo.



Antes de aprender a pedir, uma criança chora.


Antes de conhecer as palavras fome, medo ou cansaço, ela entrega o corpo ao som. O choro, quando sai, ocupa o espaço. Preenche o quarto, atravessa a parede, interrompe o pensamento, abafa os outros sons da rua.


E talvez incomode tanto justamente porque precisa ser ouvido.


Ao longo da história humana, crianças pequenas dependeram da capacidade de chorar para chamar alguém para perto.


O choro permaneceu como um sinal difícil de ignorar. Alto, insistente, às vezes estridente, captura a atenção, agita o corpo adulto, cria a sensação de que alguma resposta urgente precisa acontecer.


É um alarme vindo de fora: alguma coisa chama, e o corpo se prepara para reagir. A biologia ajuda a entender.


Ela ajuda a compreender por que o som aguça os sentidos, por que o corpo se inquieta, por que o sangue parece subir. Mas, a biologia termina antes da atitude seguinte.


Ela não escolhe o que fazemos depois. Entre a reação natural e a ação existe tudo aquilo que o adulto construiu ao longo da vida: linguagem, consciência, memória, responsabilidade. Existe, sim, a possibilidade de reconhecer a própria irritação sem entregá-la ao corpo pequeno que está diante de nós.


Em Francisco Beltrão, no Paraná, um homem foi filmado chutando o rosto da filha de três anos no meio da rua. À polícia, afirmou que havia reagido ao choro da menina. Ele foi preso preventivamente.


A explicação oferecida pelo pai precisa permanecer no lugar que lhe cabe: não explica, não diminui, não torna compreensível a violência.


Não existe no som de uma criança uma força capaz de conduzir inevitavelmente alguém a feri-la.


Tampouco existe explicação biológica que transforme agressão em resposta normal. O adulto pode sentir raiva, exaustão ou impotência. Pode experimentar uma pressa quase física para que tudo silencie. Ainda assim, continua responsável pela forma como transforma a própria emoção em atitude.


Pode perceber o descontrole chegando e não transferi-lo. Pode respirar antes de falar. Pode pedir ajuda. Em alguns momentos, cuidar também significa deixar a criança em segurança e afastar-se por alguns minutos, até que o próprio corpo volte a ser um lugar habitável.


Uma criança de três anos ainda não possui essa mesma possibilidade de distância.


Quando a frustração chega, pode ocupá-la por inteiro. Quando sente medo, talvez ainda não consiga olhar para o medo de fora e dizer o que está acontecendo. Muitas vezes, precisa encontrar no adulto alguma estabilidade que ainda não consegue produzir sozinha.


É nesse ponto que a autoridade deixa de ser uma palavra abstrata.


Não existe autoridade sem presença. Não existe autoridade sem acolhimento.


Presença é continuar ali quando a criança chora diante de um limite. Acolher é permanecer em outra frequência, sem devolver à criança uma emoção ainda pior. É ajudá-la, aos poucos, a transformar aquilo que sente em algo que possa reconhecer, nomear e atravessar.


Um “não” pode continuar de pé sem que o adulto precise crescer pela voz ou pela força.


Acolher não obriga ninguém a desfazer uma decisão. Significa permitir que a criança atravesse a frustração sem ser humilhada por senti-la.


A violência também consegue produzir silêncio. Pode interromper o choro.


Uma criança assustada talvez pare de chorar, esconda o rosto, aprenda a não mostrar mais o que sente. Por alguns instantes, pode até parecer que o objetivo foi alcançado.


Mas esse silêncio não prova que ela compreendeu qualquer coisa. Talvez revele apenas que descobriu o perigo de sentir diante de quem deveria protegê-la.


Autoridade não se mede pela rapidez com que uma criança obedece. Ela se constrói na confiança de que o adulto será firme sem se tornar ameaça; de que continuará presente mesmo quando a infância deixar de ser calma, engraçada, conveniente ou fácil de conduzir.


Diante do choro, o adulto ocupa o lugar de quem possui mais recursos. Tem mais palavras, mais possibilidades, mais ferramentas. Toda reação adulta também ensina alguma coisa. É um dos primeiros contatos da criança com a maneira como o mundo a recebe.


Talvez presença acolhedora seja isto: não desaparecer por dentro quando o choro da criança alcança o mundo de fora.


Continuar ali, maior na responsabilidade, até que ela consiga voltar a si.


A menina caiu e depois se levantou. Crianças fazem isso muitas vezes. Confiam novamente, estendem a mão, seguem o caminho, dão outra chance ao mundo para que ele continue sendo um lugar possível. Essa confiança, porém, precisa encontrar alguém que saiba recebê-la. Alguém que não transforme a capacidade infantil de recomeçar em licença para ferir outra vez.


Talvez a infância dependa disso mais do que imaginamos: encontrar alguém capaz de esperar o choro passar, enxugando as lágrimas com o rosto da criança encostado no próprio peito.

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