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Meu pai não conserta tudo

  • Foto do escritor: Ricardo Pessetti
    Ricardo Pessetti
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

A criança vem com o brinquedo quebrado na mão. Traz com cuidado, segurando as partes, uma em cada palma, como quem recolhe passarinho depois de bater na vidraça. Não explica muito. Aponta onde soltou, onde rachou, onde antes mexia e agora não mexe mais.


Entrega ao pai. Aí, espera.



Brinquedo quebrado, quando chega na mão de pai, chega com uma confiança junto. A criança ainda acredita que há uma oficina dentro da gente. Pai alcança alto, abre tampa apertada, encontra o que sumiu, espanta bicho e, se uma coisa parte, ele junta.

Pai, para filho pequeno, sabe de tudo aquilo que ele ainda não sabe.


O pai pega o brinquedo. Examina. Vira para um lado, vira para o outro. Aperta a peça no encaixe, procura parafuso, barbante, pede cola, fita. Será que tenho aquelas pistolas com cola quente?


Faz cara de quem entendeu o defeito, mesmo quando o que entendeu foi é nada. A criança acompanha. Não acompanha para aprender o conserto. Vigia o milagre.


Para ela, o pai já está consertando desde a hora que ela entregou o brinquedo. A dúvida é coisa do adulto. Criança entrega a coisa quebrada inteira de esperança.


Difícil receber assim.


Porque pai nenhum tem oficina dentro da mão. Tem até uma gaveta bagunçada, três chaves que não servem, cola vencida, fita quase no fim e uma vontade enorme de não decepcionar quem ainda acredita nele.


O brinquedo também não ajuda. Plástico, depois que racha, fica com uma lembrança de inteiro, mas inteiro não fica. Cola pega de um lado e abre do outro. A rodinha encaixa, gira duas vezes e cai. Tem coisa feita para durar menos que a imaginação da criança.


O pai tenta. Às vezes, antes de tentar, reclama.


“Eu não falei para tomar cuidado? Na minha época os brinquedos não eram essa porcaria”.

Essa frase aparece ligeira. Mais ligeira que a mão. O brinquedo chega quebrado e a criança, que veio pedir socorro, acaba chamada para depor ou ouvir uma crítica sobre a obsolescência programada e o preço elevado da indústria de diversão infantil.


Adulto lembra do preço. Criança lembra do brinquedo.


Quem pagou vê dinheiro rachado. Quem brincou vê o carro que atravessava a sala, carregava bicho, fugia de monstro, dormia debaixo da cama e conhecia lugares que só existiam entre o sofá e a parede, rachado.


Brinquedo, para criança, não vale o que custou, vale o que aconteceu nele e entre eles. Outro pode vir igualzinho, mesma caixa, mesma cor, mesma roda — que vai quebrar. Não viveu, porém, as coisas que aquele viveu. Criança também guarda lembrança em objeto. Só ainda não chama de lembrança.


Brinquedo serve para quebrar um pouco. Se não quebra, pelo menos arranha, perde tinta, amassa caixa, gasta roda. Brinquedo intacto demais quase sempre é brinquedo sem serviço. Fica bonito na prateleira, protegido da única coisa para que foi feito.


Brincar estraga. E ainda bem.


A criança põe vida na matéria, e vida, quando entra, deixa marca. Adulto é que se espanta porque comprou uma coisa nova e queria que continuasse nova depois de entregue a alguém que inventa guerra, enchente, viagem, queda, atropelamento e resgate antes do jantar.


O pai põe o brinquedo na mesa. A criança pergunta internamente: “Vai dar?”


Ele responde que vai. Nem sempre acredita.


Homem aprende cedo a responder que vai. Vai resolver, vai pagar, vai proteger, vai chegar, vai descobrir um jeito. Com filho, piora. Parece que a paternidade vem acompanhada de uma obrigação de acerto, como se junto com a certidão de nascimento entregassem ao pai o manual completo das coisas que podem e precisam ser sempre resolvidas.


Não entregam. O filho nasce e o pai nasce sem manual também. Só que um nasce podendo chorar. O outro, muitas vezes, acha que precisa saber.


Então finge. Não por maldade. Finge porque aquela confiança da criança pesa. É bonito alguém acreditar tanto na gente, mas também dá medo. A criança entrega uma roda solta e, por um instante, o pai sente que recebeu a obrigação de provar que o mundo tem reparo. Nem sempre tem.


Há parafuso sem rosca, peça perdida, mola que ninguém sabe de onde saiu. Há brinquedo que, depois de aberto, piora. O pai tenta encaixar, força um pouco, desmonta mais do que devia. Agora eram duas partes; viraram cinco.


A criança olha. Aí chega a hora que o pai mais evita:“Não sei. Não dá. Não sei consertar”.

Pai gosta de ser visto grande. Filho pequeno ajuda nisso. Pede colo, pergunta, chama, acredita. O pai passa a caber num lugar que homem nenhum sustenta por muito tempo: o de quem pode tudo. Depois o filho cresce e vai tirando o pai de lá.


Primeiro descobre que ele não sabe consertar um brinquedo. Depois, que não sabe responder uma pergunta. Mais adiante, percebe que o pai erra caminho, esquece promessa, perde a cabeça, tem medo, deve dinheiro, fica triste, adoece.


Um dia vê o homem escondido dentro do pai. Tem pai que não suporta ser visto.

Passa a vida tentando permanecer maior que o filho. Fala alto quando não tem razão, confunde respeito com obediência, toma pergunta por afronta. Não pede desculpas porque acredita que autoridade quando se torce, se perde. Bobagem.


Casa nenhuma cai porque um pai disse “errei”.


Às vezes, é o que impede a casa cair. O problema de pai que precisa acertar sempre é que, quando erra, procura alguém para receber a culpa. A criança estava desobediente. A mãe não avisou. O trabalho estava difícil. O dia foi ruim. Tudo pode ser verdade e, ainda assim, o erro continua tendo dono. Brinquedo quebrado ao menos mostra onde partiu. Gente não.


Tem rachadura que se esconde atrás de voz firme, de mesa posta, de conta paga. Tem família parecendo inteira porque ninguém mais brinca, ninguém mexe, ninguém pergunta. Tudo no lugar, aparentemente.


O pai continua sentado no chão com a rodinha na mão. Tenta de novo. A criança não foi embora.


É bonito isso: ela observa o pai falhar sem ainda saber que está observando uma falha. Vê a tentativa. A cola grudando no dedo. O adulto faz, diante dela, a mesma coisa que ela faz o dia inteiro: não consegue, não entende, muda o jeito de fazer, tenta outra vez.


Tem ensino aí, sem ninguém precisar ensinar.O pai dizer “não sei” e continuar sentado, tentando. Dizer “não deu” e não transformar o fracasso em raiva. Pedir ajuda. Procurar alguém que saiba. Ou aceitar que certas coisas não têm mais conserto, têm aceitação.


A criança perde um pouco da fantasia, mas ganha um pai de verdade. Um homem que não precisa mentir para continuar merecendo confiança. Porque confiança não é acreditar que o outro sempre conseguirá. É saber o que ele fará também quando não conseguir. A roda não firma. O brinquedo não volta ao que era. Talvez não tenha daquele jeito.


Isso também dói no pai. Não pelo carrinho. Dói porque ele já conhece outras coisas que não têm mais jeito. Sabe que um brinquedo quebrado é só o começo das entregas.


Um dia o filho vai chegar com coisa que não cabe na mão. Uma amizade acabada. Uma vergonha. Uma escolha ruim.


Um amor que foi embora. Um medo que não dorme. Vai trazer do mesmo modo, esperando que o pai encontre onde soltou a peça.


E o pai vai procurar. Vai querer apertar parafuso em tristeza, passar cola em coração, comprar outro no lugar do que se perdeu. Talvez ofereça conselho quando o filho queira silêncio. Talvez conte história própria quando bastava ouvir.


Tem dor que não aceita ferramenta. Nessas horas, volta o brinquedo. O que o filho queria quando entregou não era somente o reparo. Era não ficar sozinho diante da coisa partida.


O pai pode não consertar. Pode receber. Pode não saber o que dizer e ficar. Pode segurar uma parte enquanto o filho segura a outra. A paternidade não é o ofício do homem que devolve tudo inteiro. Isso não existe. O pai também quebra, também falha, também chega com pedaço faltando. Paternidade é essa tentativa meio desajeitada de não deixar cair de novo aquilo que o filho teve coragem de entregar.


A criança ainda olha o brinquedo. Quem sabe inventa outro uso. Carrinho sem roda é um barco.


Boneco sem braço, um herói de guerra. Criança tem uma facilidade bonita de não exigir que toda coisa continue sendo o que era. Adulto perde isso. Quando uma coisa muda, chama logo de perda.


A criança, às vezes, chama de brincadeira nova.


O pai ajuda. Não conserta, mas corta uma parte, amarra outra, encontra um jeito que não devolve o brinquedo antigo e também não joga fora o que sobrou. A criança pega. Vai brincar.


Talvez nem lembre, dentro de alguns minutos, que o pai não conseguiu. Pai é que fica ali, fita grudada na boca, pensando na falta que faz uma oficina dentro da mão.


Ainda bem que filho não precisa de milagre todo dia.


Joaquim ainda está do meu lado, esperando o conserto do trator. O vermelho, igual ao do vovô. É o de que ele mais gosta. Já consertei uma vez. Uma roda ficou travada, mas pelo menos parecia inteiro. Agora soltou de novo, e não vai dar para colar outra vez. Talvez eu tenha que ensinar a ele que um trator com três rodas é que nem o pai dele: falta pedaço, fica quebrado, mas ainda funciona.

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