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A Bíblia diz. E daí?

  • Foto do escritor: Ricardo Pessetti
    Ricardo Pessetti
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 6 horas

“Mas, a Bíblia diz que...”


A frase costuma entrar numa conversa como quem fecha uma porta na cara. Alguém decora um versículo, repete em voz alta e espera que o assunto seja encerrado ali. Não importa muito o que a outra pessoa acabou de argumentar, mostrar, elucidar, nem o tempo que levou para conseguir falar. A página sagrada foi aberta, a autoridade chegou. Agora o que resta é obedecer.


Uai. E daí que a Bíblia diz?



Essa não é uma pergunta contra a Bíblia. É uma pergunta contra a preguiça de quem usa a Bíblia para não responder pelo que faz, pelo que pensa. O texto, sozinho, não humilha ninguém. Não expulsa um filho de casa, não manda uma mulher voltar para o homem que a espanca, não chama o terreiro do vizinho de morada demoníaca. A folha fina amanteigada não toma decisão. Quem decide é quem a usa de escoro, quase sempre convencido de que sua escolha desaparece quando ele consegue colocá-la na “boca de Deus”.


É cômodo. Em vez de dizer “eu não aceito você”, diz “Deus não aceita”. Em vez de assumir “isso me incomoda”, diz “a Palavra condena”. A rejeição ganha uma capa sagrada e o medo pessoal passa a circular como mandamento eterno. Depois disso, discutir se torna quase impossível, porque já não se está diante de uma opinião humana. Está-se, supostamente, diante dos “desígnios do próprio céu”.


A Bíblia nunca chega sozinha a lugar nenhum. Ela chega, sempre, carregada por alguém.


A Bíblia vem acompanhada da igreja que ensinou aquela pessoa a lê-la daquele jeito, da autoridade que ela aprendeu a não questionar e do medo recebido ainda na infância — quase sempre justificado por alguma outra passagem bíblica. Vem também misturada aos interesses que o leitor prefere não admitir. Ele escolhe o versículo, decide o peso que lhe dará, ignora outras páginas e, no fim, chama esse conjunto de escolhas de obediência, como se nada ali fosse interpretação.


É.


Mesmo quem afirma seguir “apenas o que está escrito” já fez uma porção de escolhas antes de abrir a boca. Aceitou, antes, uma tradução da Bíblia, uma tradição, uma forma de organizar os textos, quais livros aceitar ou não. Aprendeu que certas frases devem ser lidas como ordem para todos os tempos, enquanto outras podem permanecer presas ao passado e esquecidas.


Não há leitura sem mão humana. O literalismo é só uma interpretação que tenta apagar as próprias impressões digitais.


Isso não quer dizer que qualquer leitura serve. Não serve. Quer dizer o contrário:

Toda leitura interpretativa da Bíblia deve responder pelas consequências que produz.


A Bíblia já foi abrigo de gente perseguida e instrumento de quem perseguia. Serviu de conforto aos escravizados e de justificativa aos senhores. Deu uma linguagem a quem precisava sobreviver ao luto e ofereceu frases prontas a quem não se importava com a dor alheia. O texto é o mesmo. O mundo construído ao seu redor, não.


Por isso me interessa pouco ouvir o que “a Bíblia diz” quando a frase vem desacompanhada de responsabilidade. Quero é saber o que se fará com o que se reproduziu dela. Quero saber quem será obrigado a carregar o peso da sua interpretação.


Saber, também, se o texto abriu alguma beleza por dentro ou apenas forneceu uma maneira educada de continuar sendo cruel.


Jesus dificilmente desaparece da fala religiosa. E, quase sempre, ele está voltando. Seu nome está nos louvores, hinos, orações, nas promessas e nos discursos de quem procura poder. A ausência de Cristo aparece depois, quando chega a hora de decidir o que fazer com pessoas reais, fora da igreja e dentro de casa.


É possível, muitas vezes, pregar Marcos 1, versículo 40, sobre o homem “leproso” que Jesus recebeu e rejeitar alguém por causa da sua aparência tatuada. É possível se emocionar com a mulher salva do apedrejamento e aconselhar outra a suportar uma violência dentro de casa para “não destruir a família”. É possível até distribuir alimento a uma comunidade pobre e continuar ensinando que os “Orixás cultuados por aquela gente pertencem ao mal”.


A Bíblia não preservou Jesus como quem conserva alguém inteiro dentro de um livro.

Preservou a memória de pessoas que tiveram memória dele, que ouviram quem o conheceu e tentaram traduzir em palavras aquilo que acreditavam ter encontrado.

Isso é bastante. Mas não faz da Bíblia a Palavra de Deus. Deus não tem boca, língua ou voz humana. Se tem uma voz, eu gostaria de saber como ela soa, em que idioma fala, qual dos seus leitores conseguiu ouvi-la sem misturá-la à própria voz. O que temos diante de nós são palavras humanas sobre Deus, escritas por gente que tentou compreender Deus dentro dos limites humanos.


A Bíblia é menor que Jesus.


Os evangelhos tentam alcançá-lo, dar alguma forma ao que ele foi, preservar algo de sua passagem. Tentam caber em Jesus. Não é Jesus que precisa ser diminuído até caber nos evangelhos. A página aponta, recorda, interpreta. Não substitui Cristo.


Então pouco me importa ouvir o que “a Bíblia diz” quando ninguém responde pelo que faz com aquilo que leu. Interessa saber o que a leitura produziu em quem a reproduz.


Quando uma interpretação da Bíblia encontra uma pessoa de carne e osso, o que ela autoriza fazer com a vida dela? O que passa a permitir que faça com a vida dos outros?


É aí que se descobre se a Bíblia foi caminho para Jesus ou esconderijo para fugir dele.

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